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Documentando

Até mesmo as pessoas que nunca fizeram um documentário, ou estudaram sobre isso, imaginam as dificuldades que os realizadores têm de encontrar personagens e conseguir a permissão dos mesmos para cederem imagens de suas vidas. Estamos neste processo de encontros, negociações, acordos e autorizações. Amanhã ocorrerá um passo importantíssimo: Temos hora marcada com a Major Máira, uma das nossas prováveis personagens,  para discutirmos as possibilidades de nossa proposta.

A preparação para este tipo de encontro é fundamental. Estamos revendo os documentos escritos, a carta de apresentação, o cronograma e tudo o que for necessário para que nosso encontro seja o mais esclarecedor e produtivo possível. É importantíssimo estar com todas estas etapas estruturadas para viabilizarmos o andamento de nosso projeto, além de pontuar o profissionalismo existente neste trabalho, ainda que ele esteja sendo realizado com propósitos acadêmicos.

Aguardem nossas impressões da entrevista e o próximo passo do documentário “Mulheres de Farda”.

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Estratégias de Abordagem

  • Com as mulheres
    • Entraremos em contato com mulheres militares que já são conhecidas dos integrantes do grupo. Elas serão nosso principal objeto, devido à possibilidade maior de abertura por já serem conhecidas. Além disto, procuraremos outras mulheres que também são militares e que gostariam de participar de nossa proposta. Podemos verificar se outras pessoas que conhecemos têm indicações de mulheres que trabalham na carreira e também procurarmos indicações através das assessorias de imprensa destes setores em Belo Horizonte. A abordagem será sutil e o mais clara possível para que as mulheres entendam exatamente o que pretendemos fazer e nos informem sobre o quanto querem e podem colaborar. Mesmo que algumas destas mulheres não estejam dispostas a nos deixarem filmar o seu cotidiano, a conversa com elas será material extremamente útil para o direcionamento do documentário e o esclarecimento de algumas das dúvidas e curiosidades que nos moveram a este processo de conhecimento.

  • Sobre as identidades destas mulheres
    • Após encontrarmos a abertura necessária para iniciar o trabalho com algumas militares, vamos verificar também o quanto elas estão dispostas a compartilhar conosco informações que compõem e caracterizam sua identidade, bem como suas particularidades psicológicas e atividades cotidianas. Neste momento haverá um aprofundamento sobre o que elas permitirem que mostremos de suas vidas. Devemos ser ainda mais sutis e respeitosos, pois se trata da esfera privada destas pessoas. Portanto, estaremos preparados com perguntas e propostas de filmagem claras e específicas que deverão ser adequadas à realidade e disponibilidade de cada uma das mulheres que participarem do projeto. Estaremos abertos à algumas sugestões e anseios sobre algo que elas queiram revelar que possivelmente não havíamos pensado anteriormente.

  • A casa delas
    • Ainda na esfera privada, deixaremos clara a intenção de conhecermos suas casas, como forma de extrapolar a caracterização do uniforme e do trabalho. Neste momento, é possível que encontremos outras pessoas que convivem com elas, com as quais nós não tivemos contato e não sabemos a disponibilidade para aparecer no documentário e revelarem coisas das relações com aquelas mulheres que fazem parte da vida destas outras pessoas. É muito provável que acabemos tendo contato com as famílias das militares neste momento, o que também devemos questionar a elas sobre a permissão delas e destas pessoas para que participem do projeto. Devemos estar preparados para as rejeições, dificuldades e impossibilidades, negociando os limites do que e do quanto será mostrado dessa vida mais particular, de modo a respeitar a privacidade e garantir que a segurança delas não seja afetada com a exposição que daremos a elas através da filmagem.

  • O ambiente de trabalho
    • Imaginamos que este seja o local mais delicado de trabalharmos, vistas as regras e limitações que as próprias organizações militares devem ter quanto à exposição de sua estrutura e funcionários. Para que possamos estabelecer os limites reais de possibilidade de trabalho com o projeto, dentro destes locais, entraremos em contato com a assessoria de imprensa dos mesmos, de forma a receber orientações e direcionamentos. Neste contato, talvez descubramos outras personagens para a nossa proposta, e iremos verificar também a sua disponibilidade para colaborar individualmente e não apenas nas indicações sobre a organização. Por se tratar de ambiente com limitações possivelmente maiores, deveremos exercitar a nossa negociação com diplomacia, sempre respeitando as condições exigidas para o nosso trabalho, mas procurando também esclarecer os pontos que talvez tenham ficados obscuros na nossa proposta, de forma a tentar conseguir uma maior abertura e abrangência para recolhermos nosso material audiovisual.

  • O trabalho nas ruas e a população em geral 
    • Nas ruas, espaço público, as limitações são menores, mas a abertura das pessoas talvez não seja tão fácil, devido ao seu maior número. Devemos tomar cuidado com a atenção excessiva sobre os equipamentos e a equipe de gravação, de modo a interferir o mínimo possível no trabalho de nossas personagens. Além disto, devemos ser cuidadosos ao abordar os pedestres e passantes, esclarecendo o suficiente para que saibam do que se trata a proposta e decidam ou não colaborar. São pessoas importantes para a construção da imagem (in)comum das mulheres militares, mas devemos lembrar a todo o momento que o nosso foco de trabalho e nossa maior preocupação deve ser com elas.

Proposta Documental

A proposta de abordagem documental de “Mulheres de Farda” é pautada principalmente no método interacional, já que temos intenção de, além de observar o cotidiano das mulheres militares, perguntar diretamente a elas sobre algumas das questões abordadas na Visão Original do projeto. 
Quanto aos aspectos audiovisuais, pretendemos realizar uma montagem que desconstrua o clichê da imagem de uma mulher de uniforme em sua forma mais comum – o fetiche -, possibilitando ao espectador uma experiência de olhar mais profundo sobre as mulheres que trabalham na carreira militar. Como faremos isso? Nos momentos iniciais do documentário, mostraremos apenas a superficialidade da farda: o trabalho nas ruas, as reações e ações dos passantes ao se depararem com uma mulher uniformizada, entre outras situações possíveis de serem observadas por qualquer pessoa. Podemos também mostrar a atuação destas mulheres na profissão, mas ainda sob um aspecto superficial, condizente com o senso comum. 
Após esta primeira contextualização na visão clichê das mulheres fardadas, continuaremos a montagem das imagens, com a participação mais efetiva delas. Suas tarefas, atitudes, conversas. Detalhes, entre outros, que nos proporcionam aprofundar um pouco mais a visão comum e alcançar os vestígios imagéticos de suas personalidades, feminilidade e anseios. É neste momento que começa o processo de interação com as atrizes sociais do nosso documentário. As nossas dúvidas, curiosidades, considerações, serão colocadas em pauta para que elas mesmas possam nos mostrar como a visão comum pode ser modificada. Como elas gostariam de ser vistas, além do fetiche da farda? Se é isto o que as identifica como pertencentes a uma profissão de maioria masculina, quais são as situações, atitudes, características e adereços que elas terão para nos mostrar a sutileza que têm mesmo em uma profissão que pressupõe que elas sejam “duronas”? Neste sentido, intentamos deixar que elas também participem efetivamente do processo de darmos voz ao feminino por trás das fardas. 
Existem aspectos da imagem que não podemos definir ainda, posto que não sabemos o que nos será permitido gravar. Ainda assim, é importantíssimo que tenhamos estas diretrizes do processo de gravação para que não nos percamos. Uma sugestão interessante que tivemos na equipe foi a da capacitação de todos os integrantes para a operação da câmera, assim poderíamos trabalhar durante mais tempo, de acordo com a disponibilidade de cada um e com uma equipe de menor número. É algo que está em consideração, mas bastante viável e adequado à proposta documental.

Visão Original

Mulheres de Farda são diferentes, atraentes, misteriosas. Apesar deste olhar inicial que votamos a elas ser bem clichê, procuramos ir além. Desejamos despojar as fardas das mulheres militares para descobrir o que há por trás de suas roupas: são mulheres, mas são comuns? O cotidiano delas envolve assuntos, posturas e dificuldades diferentes do cotidiano de quaisquer outras mulheres em profissões não-militares. O que difere umas das outras? Elas têm as mesmas expectativas quanto à formação de uma família e a geração de filhos? Quais são os riscos da carreira nos planos de vida destas mulheres, às vezes armadas? Nossa proposta é descobrir exatamente o que acontece no cotidiano das Mulheres de Farda. Quanto de seu uniforme elas estarão permitidas ou dispostas a se despojar para nos revelarem os mistérios de suas diferenças? Quantas semelhanças descobriremos entre estas e todas as outras mulheres? Quantos desejos? Quantas ambições? Quanta feminilidade? Mulheres de Farda podem ser interessantíssimas, mas elas ainda são mais do que o que representa a farda que vestem.